terça-feira, 5 de março de 2013

Série - Os sete pecados capitais e os deuses gregos



Apolo - Orgulho

Apolo é o deus da música, da poesia, da dança, da busca pelo conhecimento, da luz, conhecido como Febo, o deus sol, entre inúmeros outros atributos e patronatos.
O orgulho encabeça as listas dos antigos por se opor à obediência imposta aos créus pelas religiões. A consciência de si mesmo, a racionalidade, a lógica, o livre pensar são pecados de orgulho para as três religiões monoteístas (se considerarmos o cristianismo uma religião monoteísta).
Os orgulhosos são presos à "Roda" - o instrumento de tortura usado em Santa Catarina de Alexandria - logo que põe o pé no Inferno.
A virtude correspondente é a humildade.


Ártemis - Inveja

Ártemis - é a deusa da caça, porta uma lua crescente sobre a cabeça e é identificada com Selene, a deusa da Lua. A Associação à inveja advém do caçador cobiçar algo que não lhe pertence, aniquilando o objeto de seu desejo, caso esse seja o imperativo para possuí-lo.
A busca por justiça social, a competição saudável, a liberdade política foram considerados pecados de inveja pelas religiões defensoras do statu(s) quo, do direito divino de reis absolutistas, da virtude intrínseca da pobreza, do contentai-vos com o que a providência vos dá, como os "Lírios do Campo".
No Inferno os invejosos são submersos em água gelada. Considerando o calor que faz do lado de fora, até que Lúcifer é brando com esta casta de criminosos.
A virtude correspondente é a caridade (e admiração).


Ares - Ira

Ares - é o deus da guerra. Revidar uma agressão, revoltar-se contra dogmas e imposições, defender-se com agressividade foram considerados pecados de ira pelas religiões, cujos fiéis devem ser ovelhas inofensivas. A agressividade só era permitida aos religiosos e aos nobres, sob cujas peles recebia os nomes hombridade e heroísmo.
A ira é punida pelo desmembramento, que é muito pior que a amputação cirúrgica. Como o Inferno é eterno, imagino que os membros são reimplantados no "paciente" para um próximo esquartejamento - um trabalho de Sísifo que só deve agradar a sádicos do quilate de Satanás e Torquemada.
A virtude correspondente é a paciência (e mansidão).

Hermes - Avareza

Hermes é o deus do comércio e do lucro, dos mercadores e viajantes. Passou a ser também o deus mensageiro quando foi associado ao grego Hermes.
Este pecado capital fica bem ilustrado no aumento de quase 100% proposto pelos parlamentares em Brasília. Não porque Brasília é a "capital" do Brasil, esclarecendo o óbvio... (risos)
A economia e o acúmulo de bens foram considerados pecados de avareza - ou pecado contra a providência divina - por muitos religiosos, nos quais tal vício recebe o nome de "subsistência", como Bocaccio escreveu há mais de seiscentos anos em um conto do Decamerão.
Os avaros são jogados em potes cheios de óleo fervente. Não vi nenhuma relação entre o pecado e a punição. Os inquisidores católicos pareciam ter mais imaginação que o Príncipe das Trevas...
A virtude correspondente é a liberalidade (generosidade).

Zeus - Gula

Zeus pode ser associado à gula por seu desejo de poder, por ser o "Jupiter Victor" que conduzia o exército romano às vitórias que engoliam nações, que submetiam cada vez mais populações ao seu obeso império.
As religiões abominam tanto a gula que religiosos de pança inchada, que comem de graça em casa de beatas e que não dispensam comida e bebida fartas praticamente inexistem...
Tão logo os glutões adentram o mundo subterrâneo são obrigados a comer ratos, lagartos e outras iguarias infernais.
A virtude correspondente é a temperança. Não, não tem nada a ver com tempero(risos).

Afrodite - Luxúria

Afrodite é a deusa romana do amor e da beleza, entre outros atributos. Freia é a deusa germânica da juventude e beleza.
As religiões abominam a incontinência sexual (eu acho que é caso para internação). Por certo orgias com setenta virgens são coisas santas quando acontecem no paraíso, mas aqui na Terra levam o infrator ao fogo eterno. De resto, histórias verídicas de Íncubus e Súcubus existem para provar que os religiosos só têm relações sexuais quando forçados pelos tais demônios sexuados. Alguns difamadores insistem que amiúde são eles que forçam criaturas indefesas a satisfazerem suas demandas hormonais. Será verdade?
Os lascivos são simplesmente queimados. Não sei se são amarrados a mastros durante o processo ou se ficam perambulando pelo Inferno, que, como todos sabem, é composto basicamente de fogo.
A virtude correspondente é a castidade.

Cronos - Preguiça

É associado a Cronos, deus do tempo. O ócio é chamado de oficina do diabo pelas religiões, talvez por favorecer a meditação filosófica, tão nociva à aceitação de verdades absurdas. O mesmo valia para a antiga relação patrão-empregado. O ócio era mal visto na era industrial por favorecer discussões sobre salários, condições de trabalho, por favorecer a formação dos famigerados sindicatos. A religião, nestes casos, era o instrumento ideal para manter o trabalhador longe de "problemas". Gerald Ford tinha pavor de ver seus funcionários ociosos após o trabalho e durante os fins de semana. Obviamente tratou de estimular atividades religiosas entre eles, as quais por vezes preenchiam todo seu tempo vago.
Os indolentes são jogados em poços cheios de serpentes venenosas, como no filme do Indiana Jones. Lá bulirão eternidade afora, para compensar as décadas de ócio aqui na Terra.
A virtude correspondente é a diligência.


domingo, 3 de março de 2013

Os paradoxos do amor no mundo contemporâneo



Capítulo 33 do livro
Filosofando
de Maria Lúcia de Arruda Aranha e
Maria Helena Pires Martins
editora Moderna – 1986
“Na sociedade contemporânea, fala-se e escreve-se muito sobre sexo e quase nada sobre o amor. Talvez seja pelo fato de que o amor, sendo um engimga, não se deixa classificar, repelindo toda tentativa de classificação ou definição. Por isso, a poesia, campo mítico por excelência, encontra na metáfora a compreensão melhor do amor.Realmente, a literatura nunca deixou de falar do amor.
Talvez este vazio conceitual se deva à dificuldade de expressão do amor no mundo contemporâneo. O desenvolvimento dos centros urbanos criou o fenômeno da “multidão solitária”: as pessoas estão lado a lado, mas suas relações são de contigüidade, relações que dificilmente se aprofundam, sendo raro o encontro verdadeiro. Talvez o falar muito sobre sexo seja uma tentativa de camuflar a impessoalidade fundamental dessas relações, na medida em que o contato físico simula o encontro.
No entanto, não só as relações entre duas pessoas se acham empobrecidas. O afrouxamento dos laços familiares – não importa aqui analisar as causas nem procurar a validade da situação – lançou as pessoas num mundo onde elas contam apenas consigo mesmas. (…)
Os paradoxos do amor

Vínculo x liberdade

O amor, sendo desejo de união com o outro, estabelece, no entanto, um tipo de vínculo paradoxal: o amante deve cativar para ser amado livremente. Podemos mesmo dizer que o fascínio é gerador de poder: o poder de atração de um sobre o outro. No entanto, tal “cativeiro” não pode ser entendido como ausência de liberdade, pois a união deve ser a condição da expressão cada vez mais enriquecida da nossa sensibilidade e da nossa personalidade. É fácil observar isso na relação entre duas pessoas apaixonadas: a presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, pois são os dois que escolhem livremente estar juntos.
O amor imaturo, ao contrário, é exclusivista, possessivo, egoísta, dominador. Mas não é fácil determinar quando o poder gerado pelo amor ultrapassa os limites. Vimos que a força do amor está na atração que um exerce sobre o outro. Em que momento isso se transforma em um desejo de controlar, de manipular?
A sociedade capitalista, centrada no valor do “ter”, desenvolve formas possessivas de relação. O ciúme exacerbado é o desejo de domínio integral do outro. Marcel, personagem de Proust, inquieta-se quando varado de ciúme até dos pensamentos de sua amada Albertine. Só descansa quando a contempla adormecida…
Não queremos dizer que o ciúme não deva existir. Etimologicamente, ciúme significa “zelo”: o amor implica cuidado e temor de perder o amado. Portanto, se não desejamos o rompimento da trama tecida na relação recíproca e se o outro dá densidade à nossa emoção e enriquece nossa existência, sofremos até com a idéia da perda.
Vínculo x Alteridade
Há outro paradoxo no amor: ele deve ser uma união, com a condição de cada um preservar a própria integridade. Faz com que dois seres estejam unidos e, contudo, permaneçam separados.
O amor é o convite para sair de si mesmo. Se a pessoa estiver muito centrada nela mesma, não será capaz de ouvir o apelo do outro. É isso que ocorre com a criança, que normalmente procura quem melhor preencha suas necessidades. Quando esse procedimento continua na idade adulta, torna-se impedimento do amor verdadeiro. Basta lembrar a lenda de Narciso, que, ao contemplar seu rosto refletido na água, apaixona-se por si próprio. Isso causa sua morte, pois esquece de se alimentar, tão envolvido se acha com a própria imagem intangível. O narcisista “morre” na medida em que torna impossível a ligação fecunda com o outro.
Esse egocentrismo persiste na adolescência, como momento de passagem da vida infantil para a vida adulta. Por isso o adolescente muitas vezes não propriamente o outro, ser de carne e osso, mas ama o Amor. Trata-se do amor idealizado, romântico, um pouco fruto do medo desse lançar-se nas contradições do exercício efetivo do amor.
O exercício do amor supõe a descoberta do outro. Por isso o amor envolve o respeito, não no sentido moralista que rotineiramente se dá a esse conceito, mas como temor resultante da autoridade imposta. Respicere, em latim, significa “olha para”, ou seja, o respeito e a capacidade de ver uma pessoa como tal, reconhecendo sua individualidade singular. Isso supõe a preocupação de que a outra pessoa cresça e se desenvolva como ela é, não como queiramos que ela seja. O amor supõe a liberdade, e não a exploração: o outro não é alguém de quem nos servimos. O amor maduro é livre e generoso, fundando-se na reciprocidade.
(…) O paradoxo da relação amorosa, colocada ao mesmo tempo como desejo de união e preservação da alteridade, dimensiona a ambigüidade em que o homem é lançado. Os sentimentos gerados também são ambíguos: são sentimentos de amor e ódio para com aquele que escolhemos conscientemente, mas de cuja escolha resultou o abandono de outras possiblidades…
O não saber viver nessa ambigüidade leva certas pessoas ou a procurar a “fusão” com o outro, do que decorre a perda da individualidade, ou a recusar o envolvimento por temer essa perda.
No entanto, o risco do amor é a separação. Mergulhar numa relação amorosa supõe a possibilidade da perda. Segundo o psicanalista austríaco Igor Caruso, a separação é a vivência da morte numa situação vital: é a vivência da morte do outro em minha consciência e a vivência de minha morte na consciência do outro.
Quando ocorre a perda, a pessoa precisa de um tempo para se reestruturar, pois, mesmo quando mantém sua individualidade, o tecido do seu ser passa inevitavelmente pelo outro. Há um período de “luto” a ser superado após a separação, quando, então, se busca novo equilíbrio.
Uma característica dos indivíduos maduros é saber integrar a possibilidade da morte no cotidiano da sua vida. E quando falamos em morte, nos referimos não só ao sentido literal, mas às diversas “mortes” ou perdas que permeiam nossas vidas. No entanto, nas sociedades massificadas, onde o eu não é suficientemente forte, as pessoas preferem não viver, para não ter de viver com a morte. Por isso, também, as relações tendem a se tornar superficiais, e é nesse sentido que o pesnador francês Edgard Morin afirma: “Nas sociedades burocratizadas e aburguesadas, é adulto quem se conforma em viver menos para não ter que morrer tanto. Porém, o segredo da juventude é este: vida quer dizer arriscar-se à morte; e fúria de viver quer dizer viver a dificuldade”

sexta-feira, 1 de março de 2013

Encontrando com Apolo (uma linda projeção)


Ele é do tipo de homem que nunca vai deixar de ser notado. É o próprio Apolo encarnado na terra. Quando sorri, deixa duas lindas covas no rosto. Seu cabelo, estilo Elvis, continua o mesmo. O corpo parece talhado em mármore pelo mais perfeccionista escultor.  
Ela reconhece o Apolo encarnado na primeira vez que olha para ele, fica desconsertada, desnorteada, exasperada. Motivo: jamais pensou em vê-lo novamente nessa existência. Seria uma miragem? Mas sim é ele.  Justamente a linda projeção de homem que ela faria para si: lindo, realizado e sem presunção. Ela pensa: “por que todo homem extremamente lindo é assim: modesto?”. Toque de charme extra. O melhor de tudo: ele é suave ao falar, é como se fosse uma dessas pessoas sem problemas.
Ela se lembra de cada um dos dias que se viam, dos elogios que ele fazia para ela, vindos dele, os elogios foram os mais significativos de sua vida. Todos os dias ele pegava água para ela, perguntava se estava bem...
Ela, por outro lado, adivinhou o signo dele no primeiro dia: “libra ou peixes?”. Ele olhou admirado. Um olhar de quem foi descoberto em seu segredo: “libra, do dia 25 de setembro. Mas como você sabia?”. Ela riu vitoriosa, as outras invejaram sua façanha.
Ontem, depois de vários anos, ela o vê novamente. No olimpo onde deuses como ele costumam estar. O mesmo sorriso, a mesma simpatia, a mesma naturalidade. Eles conversam  e parecem bons amigos como se o tempo não tivesse passando.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

“We – A chave da psicologia do amor romântico” – Robert A. Johnson


O mito do amor romântico




Extraño - Nenhum de nós


"O que eu sinto a respeito de nós é estranho
É estranho como é triste
É estranho como olhar pra trás
É estranho como é estranho
Esquecer um nome"

O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental. Na nossa cultura, é — mais ainda que a própria religião — a arena em que homens e mulheres tentam conseguir transcendência, plenitude, êxtase e sentido para a vida.
Como fenómeno de massa, o amor romântico é pe­culiar ao Ocidente. Estamos tão acostumados a convi­ver com as crenças e as suposições do amor romântico, que o consideramos como a única forma de “amor” que pode gerar casamento e relacionamentos verdadeiros. Achamos que o amor romântico é o único “verdadeiro amor”. Mas existem muitas outras coisas a este respei­to que podemos aprender do Oriente. Nas culturas orientais, como a da índia ou a do Japão, constatamos que os casais se amam com muita cordialidade, muitas vezes com uma devoção e uma estabilidade que desco­nhecemos.
Mas o amor deles não é o “amor romântico” como nós o conhecemos. Eles não impõem aos seus relacionamentos os mesmos ideais que impomos aos nossos,  nem fazem exigências impossíveis ou alimentam expec­tativas como nós fazemos.
O amor romântico não é apenas uma forma de “amor”, mas é todo um conjunto psicológico — uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Essas ideias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações. Inconscientemente, predeterminamos como deve ser um relacionamento com outra pessoa, o que devemos sentir e mesmo o que devemos “lucrar com isso”.
 O amor romântico não significa apenas amar alguém; significa “estar apaixonado”. Este é um fenó­meno psicológico muito peculiar. Quando estamos “apaixonados”, acreditamos ter encontrado o verdadei­ro sentido da vida revelado num outro ser humano. Sentimos que finalmente nos completamos, que encon­tramos as partes que nos faltavam. A vida, de repente, parece ter atingido uma plenitude, uma vibração sobre-humana, que nos ergue acima do plano comum da exis­tência. Para nós, estes são os sinais seguros do “amor verdadeiro”. Este conjunto psicológico inclui uma exi­gência inconsciente de que o nosso amante ou cônjuge nos alimente continuamente com esta sensação de êxta­se e de emoção intensa.
Com a típica presunção ocidental de estarmos sem­pre com a razão, achamos que o nosso conceito de “amor”, o amor romântico, deva ser o melhor. Presu­mimos que, comparado a este, qualquer outro tipo de amor entre homens e mulheres seria frio e insignifican­te. Mas se nós, ocidentais, formos realistas, teremos de admitir que o nosso enfoque do amor romântico não está funcionando bem.
Apesar do êxtase que sentimos quando estamos “apaixonados”, passamos boa parte do nosso tempo com uma profunda sensação de solidão, alienação e frus­tração causada pela nossa incapacidade de construir re­lacionamentos afetuosos, baseados em compromissos. Culpamos geralmente os outros por nos terem falhado; não nos ocorre que talvez sejamos nós que precisemos modificar nossas próprias atitudes inconscientes — as expectativas que alimentamos e as exigências que im­pomos aos nossos relacionamentos e às demais pessoas.
 Esta é a grande ferida na psicologia ocidental, é o problema psicológico básico da nossa cultura. Jung disse que se descobrimos a ferida psíquica num indiví­duo ou num povo, aí descobrimos também o caminho para a conscientização, pois é no processo de cura das nossas feridas psíquicas que acabamos por nos conhecer a nós mesmos. O amor romântico, se realmente tentar­mos compreendê-lo, pode tornar-se tal caminho para a conscientização. Se os ocidentais se libertarem da servi dão maquinal às suas presunções e expectativas incons­cientes, não apenas atingirão uma nova consciência em seus relacionamentos como também uma nova consciên­cia de si próprios.
O amor romântico se tem manifestado em muitas culturas no desenrolar da história. Nós o encontramos na literatura da Grécia antiga, no Império Romano, na antiga Pérsia e no Japão feudal, mas a nossa sociedade ocidental moderna é a única cultura da história que teve a experiência do amor romântico como um fenómeno de massa. Somos a única sociedade a cultivar o ideal do “amor romântico” e a fazer do romance a base de casa­mentos e relacionamentos amorosos.
O ideal do amor romântico irrompeu na socieda­de ocidental durante a Idade Média, surgindo pela pri­meira vez na literatura no mito de T ris tão e I solda, de­pois nos poemas e nas canções de amor dos trovadores. Era conhecido como “amor cortês” e tinha por mode­lo o intrépido cavaleiro que honrava uma bela dama e fazia dela a sua inspiração, o símbolo de toda a beleza e perfeição, o ideal que o incentivava a ser nobre, espi­ritualizado, refinado e voltado para assuntos “eleva­dos”. Na nossa época introduzimos o amor cortês nos casamentos e nos relacionamentos sexuais, mas ainda mantemos a crença medieval de que o amor verdadeiro tem de ser a adoração extática de um homem ou de uma mulher que representa para nós a imagem da perfeição.
Jung nos mostrou que quando um fenómeno psi­cológico marcante acontece na vida de um indivíduo, isto significa que um tremendo potencial inconsciente está emergindo, prestes a manifestar-se ao nível da consciência. O mesmo é válido para as coletividades. Num determinado ponto da história de um povo, uma nova possibilidade surge do inconsciente coletivo; é uma nova ideia, uma nova crença, um novo valor ou, ainda, uma nova maneira de encarar o universo. Isto representa um bem em potencial, se puder ser integra­do ao consciente, mas a princípio é assustador e até mesmo destrutivo.
O amor romântico é um desses fenómenos psico­lógicos realmente arrasadores que surgiram na história dos povos ocidentais. Foi algo que esmagou nossa psi­que coletiva e alterou permanentemente nossa visão do mundo. Ainda não aprendemos a lidar coletivamente com o tremendo poder do amor romântico. Frequente­mente nós o transformamos em tragédia e alienação e não em relacionamentos humanos duradouros. Acredi­to, porém, que se homens e mulheres compreenderem os mecanismos psicológicos que atuam por trás do amor romântico e aprenderem a lidar com eles conscientemente, terão nas mãos a chave para novas possibilida­des de relacionamento, tanto com os outros como con­sigo mesmos.
Nosso veículo para explorar o amor romântico é o mito de Tristão e Isolda. Trata-se de um dos mais comoventes, belos e trágicos de todos os grandes rela­tos épicos. Foi a primeira história na literatura ociden­tal a lidar com o amor romântico, e é a fonte da qual se originou toda a nossa literatura romântica, desde. Romeu e Julieta até a história de amor em cartaz nos cinemas do bairro. Aplicando os princípios da psicolo­gia jungiana, interpretaremos os símbolos do mito e co­nheceremos por ele as origens, a natureza e o significa­do do amor romântico.
O mito de Tristão e Isolda, como o de Parsifal, é um “mito masculino”. Ele retrata a vida do jovem Tristão que se transforma num herói nobre e altruísta, para depois se deparar com uma experiência arrasadora em sua vida: a paixão pela Rainha Isolda. É como uma simbólica peça de tapeçaria, que retrata em cores vivas o desenvolvimento da consciência individual do homem na luta para conquistar sua masculinidade, conscientizar-se do seu lado feminino e lidar com o amor e o re­lacionamento. É uma história que mostra um homem dividido entre a lealdade e as forças conflitantes que se agitam ferozmente na psique masculina, enquanto ele é consumido pelas alegrias, paixões e sofrimentos do romance.
Mesmo assim, existe neste mito muita coisa de grande valor e interesse para as mulheres, pois Tristão revela também o mecanismo universal do amor român­tico que é comum a homem e mulheres (ver “Uma observação para as mulheres”). Examinar esse mito, senti-lo como uma rica evocação do processo da psique ocidental, é algo que irá ajudar a mulher não apenas a compreender melhor o homem na sua vida, como tam­bém a ver mais claramente as forças misteriosas que atuam dentro dela mesma.
Tanto para o homem quanto para a mulher, en­xergar realisticamente o amor romântico é uma tarefa heróica. É algo que nos força a ver não apenas a beleza e o potencial contidos no amor romântico, como tam­bém as contradições e as ilusões que trazemos conosco ao nível inconsciente. Jornadas heróicas conduzem sem­pre a vales sombrios e a confrontos difíceis mas, ao perseverarmos, alcançaremos um novo estágio de conscientização
Jhnson, Robert AWe - A chave da psicologia do amor romântico: Ed. Mercúrio


Categoria: Psicologia / Psicologia

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Aquela que espera.

Por: Deia Morais
"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência, detalhes de vida e crenças desse texto e blog não expressam a crença da autora, é pura expressão literária”


Em um primeiro momento, aquela que espera não queria ser esta sentada à mesa, papel e lápis a mão. Essa que espera, o que será dela?  E dessa explosão de sentimentos em seu peito? E dessas lágrimas que ficam presas, deixando a garganta salgada? E o que ela fará daquele pressentimento que se questiona se ele virá. Ela se pergunta o que fará com sua resiliência, com sua mania teimosa de quem se dobra e não cede, com sua teima de quem nunca se dá por (con) vencida?  
Aquela que espera sabe da sua passionalidade, da sua explosão. Por outro lado, sabe que sempre terá quem vai a amar. Quanto a ele, aquele que (ainda) não veio, pensa: "você sempre soube no passado, você sempre saberá no futuro". Aquela que espera ri sozinha na mesa porque percebe que pensou sobre si em segunda pessoa. E, para não perder o hábito, novamente diz a si mesma com um riso nos lábios: "você perdeu o juízo".
Aquela que espera sabe que, com relação a ele,  é mais madura,  sabe que é mais vivida,  sabe que vai ser feliz. Sabe que tem amigos de verdade,  amigos de infância e perpétuos,  amores eternizados,  dias iluminados,  pais que a amam, força na vida,  doideiras insanas. Ela tem suas lembranças de cama, sua ausência é sentida, seu coração é de quem ama, sua dor é efêmera. 
Aquela que espera sorri para si mesma porque vê,  que aquele que (de fato) não veio,  jamais poderia amá-la, porque jamais passou do tácito, do material, do falível, daquilo ninguém leva no espírito. E vê que que, sobre o conhecimento mais  importante de vida, ele tão pouco soube, ele tão pouco saberá.
E ali,  entre um copo e outro, decide afogar de vez qualquer espera por ele, qualquer espera de um encontro que nunca mais vai acontecer, nem nesta, nem na outra vida. 



Claude Monet
Camille Monet in the garden
Coleção privada - Zurique - Suiça

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Nix: deusa dos segredos e mistérios noturnos




Nix é a patrona das feiticeiras e bruxas, é a deusa dos segredos e mistérios noturnos, rainha dos astros da noite. Nix é cultuada por bruxas e feiticeiras, que acreditavam que ela da fertilidade a terra para brotar ervas encantadas, e também se acreditava que Nix tem total controle sobre vida e morte, tanto de homens como de Deuses. Homero se refere a Nix com o epíteto "A domadora dos Homens e dos Deuses", demonstrando como os outros Deuses respeitavam-na e temem esta poderosíssima deidade.
Nix, assim como Hades, possui um capuz que a torna invisível a todos, assistindo assim ao universo sem ser notada. Foi Nix que colocou Hélios entre seus filhos (Hemera, Éter e Hespérides), quando os outros Titãs tentaram assassinar Hélios. Zeus tem um enorme respeito e temível pavor da Deusa da Noite, Nix. Os filhos de Nix são a Hierarquia em poder para os Deuses, sua maioria são divindades que habita o mundo subterrâneo e representam forças indomáveis e que nenhum outro Deus poderia conter. Em uma versão, as Erínias são as filhas de Nix (Ésquilo).
Nix aparece ora como uma deusa benéfica que simboliza a beleza da noite (semelhante a Leto) e ora como cruel deidade Tartárea, que profere maldições e castiga com terror noturno (Hécate e Astéria). Nix é também uma Deusa da Morte, a primeira rainha do mundo das Trevas. Nix também tem dons proféticos, e foi ela quem criou a arma que Gaia entregou a Cronos para destronar Urano. Nix conhece o segredo da imortalidade dos Deuses podendo tirá-la e transformar um Deus em mortal, como ela fez com Cronos, após este ser destronado por Zeus.

Algumas vezes, a exemplo de Hades, cujo nome evitava-se de pronunciar, dão a Nix nomes gregos de Eufrone e Eulalia, isto é, Mãe do bom conselho. Há quem marque o seu império ao norte do Ponto Euxino, no país dos Cimérios; mas a situação geralmente aceita é na parte da Espanha, a Esméria, na região do poente, perto das colunas de Hércules, limites do mundo conhecido dos antigos.
Desposou Érebo, seu irmão, de quem teve o Éter (luz celestial) e Hemera (Dia). Mas sozinha, sem se unir a nenhuma outra divindade, procriara o inevitável e inflexível Moros (o Destino), as Queres (morte em batalha), os gêmeos Tânatos (Morte) e Hipnos (o Sono), Oniro (a legião dos Sonhos), Momos (escárnio), Oizus (miséria), as Hespérides, guardadoras dos pomos de ouro, as desapiedadas Moiras (Deusas do destino), Nêmesis (Deusa da retribuição), Apate (engano,fraude), Filotes (amizade) , Geras (velhice) Éris (Discórdia), Limos (a fome), Ftono (inveja), Ênio (Belona, deusa da carnificina), Lissa (a loucura) e Caronte o barqueiro do mundo dos mortos. Em resumo, tudo quanto havia de doloroso na vida passava por ser obra de Nix, a maior parte dos outros descendentes da Deusa nada mais são que conceitos e abstrações personificados; sua importância nos mitos é muito variável. Na tradição Órfica, todo universo e demais Deuses primais nasceram do Ovo Cósmico de Nix. Certos poetas a consideram como mãe de Urano e de Gaia; Hesíodo dá-lhe o posto de Mãe dos Deuses, porque sempre se acreditou que a Nix e Érebo haviam precedido a todas as coisas.
Muito freqüentemente colocam-na no mundo subterrâneo, entre Hipnos e Tânatos, seus filhos.
Hemera e as Hespérides nasceram para ajudar Nix a não se cansar, assim nasceu o ciclo diário, Hemera trás o dia (relaciona com Eos, a aurora, e Helios, o Sol); as Hespérides trazem a tarde, (relaciona com Selene a lua) e Nix traz a absoluta Noite, todas estas deidades em conjunto conduzem a dança das Horas; complementando estes ciclos temos outros Deuses de outras linhagens, como as Horas que representam ciclos mensais e anuais; Leto e Hécate que recebem o legado de Nix como deidade da noite. As Moiras, filhas de Nix (Cloto, Laquesis e Átropos), são outra continuidade dos poderes gigantescos de Nix do negro véu.

Referencia:Winkpedia